“Vai voando. Contornando a imensa curva Norte e Sul. Vou com ela.
Viajando Havaí. Pequim ou Istambul...”
(Aquarela – Vinícius de Moraes/ Toquinho)
Sempre gostei de balões. Especialmente àqueles que magicamente se inflam com o calor e ganham os céus. Massas coloridas, de um material cuidadosamente selecionado e checado, têm a capacidade de carregar, pendurados a uma cesta, corajosos seres que aceitam se deixar levar. Corajosos seres que se deixam carregar para uma aventura intrigante parte controlada pelo tempo, parte pelo homem.
Algumas vezes paro para observar e minha mente viaja junto nessa aventura. Os balões têm me parecido, ultimamente, uma daquelas metáforas deliciosamente recheadas de significados. Gosto de pensar em todos os procedimentos que são responsáveis por levar esse intrigante equipamento a ganhar os céus, como etapas do crescimento pessoal.
Ora, não é fantástico perceber que: para ganharmos os céus de nossas vidas todos precisamos de um imenso gerador de calor? Não é um calor quase incontrolável o combustível dos sonhos? Não é uma fornalha interna que nos move, que nos mostra o caminho à diante, que norteia nossas buscas, que nos dá força para levantar? Com pouco calor o balão não infla e não voa! Os mornos não costumam ganhar os céus também...é preciso mais.
E o percurso dessa aventura? Como não poetizar a respeito? Quem ousa a dizer que temos absoluto controle de onde e quando nosso balão vai pousar? Quem não se sente tomado pelas correntes de vento que de repente carregam nosso equipamento para um lugar que não estava previsto no plano de voo? Mas ainda bem, e que lindo é isso, é possível controlar o fogo que move o balão, diminuir a intensidade para fugir de pesadas nuvens, aumentar a potência para passar por cima de uma corrente forte demais. Sim é possível, mas isso se você estiver no controle do balão! Os passageiros, que me desculpem, até apreciam a paisagem, mas não têm o delicioso poder de brigar com o tempo. De pelo menos tentar conduzir o destino do voo.
Durante um tempo, um longo tempo, acreditei também que para ser pleno nessa viagem era preciso acumular. Que era necessário manter sempre ali comigo ideias, conhecimento, maneiras de agir, regras, rótulos. E foi assim que fui botando em saquinhos e pendurando ao longo da minha cesta coisas que achei de mim mesma, que outros acharam, sentimentos bons e ruins. Fui acumulando meus saquinhos um a um e com um tolo orgulho pensava: eu sou assim! Nunca percebi que os saquinhos geravam um imenso peso, que ia me acompanhando ao longo do meu voo. Até que, de repente, as correntes de vento, àquelas que nos movem, já não pareciam ser suficientes para fazer o balão subir. O fogo, embora constante e potente, também já não dava conta sozinho de levar o balão além.
O que há de errado pensava? Por que o balão não está subindo? Foi então que uma especialista, uma instrutora de voo muito especial que faz parte da minha trajetória há lindos dois anos, me lembrou dos saquinhos! Eureca, como diria Galileu Galilei! Para ganhar os céus também é preciso desamarrar os saquinhos presos na cesta! Sim, alguns deles precisam ser deixados para traz, abandonados no meio da viagem mesmo. Só assim é possível ir além. Só assim é possível voar mais alto. Só assim é possível crescer. Entendi!




